Der Roboter

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Em um mundo não natural, ele foi se transformando. As características que  d'antes não possuía foram tomando conta de seu ser. Suplantadas foram suas reais características, um corpo não-natural. Intruso de si mesmo.
A impossibilidade de lidar com que natural é foi-se tornando marcante. Mesmo que ali estivesse, as características alienígenas estavam incutidas, tão fortemente  enraizadas, que neste mundo natural, o mecânico modificado lhe acompanhava.
Deveriam ser melhoras. Não eram. Defeitos novos e piores se sucediam. Um mundo de máscaras era a novidade do milênio.
Um mundo tão sintético onde pessoas possuem corações de plástico e o algodão não molha mais diante da água. Ainda assim, é um mundo onde o colorido toma conta de tudo, pode fazer-se em tudo, as cores são ilimitadas. Infelizmente, ainda assim, o negro e o branco conseguem fazerem-se dominantes, mais poderosos que as variadas e ilimitadas cores. As pessoas monocromáticas apagam as cores das luzes de neon. O corpo transmutado, características genéricas, e os detalhes diferenciadores apagados.
Um mundo de seres humanos manufaturados. Não natural. A confecção artesal aqui não tem espaço.O artesanal aqui é obsoleto e  adquire novas formas. Ganha novos adendos imperfeitos. Um ser humano que ganha um prazo de validade menor a cada revisão. Que vive em um mundo de cores e ainda assim é monocromático. Sim, ele mudou. Antes tinha em si luzes de neon. Agora, sequer conseguia diferenciar seu olho esquerdo negro daquele azul com o qual nascera.

 

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Imagens: Natalie Shau

Sonho

 

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Odeio turbilhões. Ventanias. Sopram, não levam tudo. Só destróem e fazem tombar o que não deveriam. O que não imaginávamos que cairia com o vento... Rígido, tal qual pedra de granito. E agora quem te embala para dormir? Os olhos foram fechados em um sono profundo. Que sonhas neste momento?
Foi o abraço que faltou. Foi o implorar-te para ficar. Apenas um beijo, um carinho e um pedido. Que não pôde ser atendido. Até depois de amanhã.
Aqui tem um arranhão enorme. Não há beijo teu para curar-me agora. Não há. Será que sabias deste buraco que ficaria? Teu espaço. Nem sabias a existência dele. Como um músculo que descobrimos quando a dor nele começamos a sentir. E isto dói.
Parece que amanhã te encontro. Mas sei que isso não acontece. Será sonho bom este teu?  O tempo faltou. Ele sempre falta. Eu deveria ter te segurado com força para o vento não te tombar. Mas tu abristes os braços para o vento. Gostastes da brisa. Querias ver se com ela voavas. De certa forma, planastes. Soberania acima de tudo, não é?
A natureza é irracional e poderosa. O vento apenas sopra. É o natural. Lutar contra o mesmo é loucura, deixastes claro. O certo é saber escolher se vais por ele te envolver, ou se procurar abrigo antes da chegada do mesmo. Porque, resistir quando ao relento, é estupidez. Gasto desnecessário de forças.
Foi a tua escolha.
Que sonhas agora? Aquele canto teu entoado por mim não tem o mesmo efeito, não me faz dormir...

 

Este texto possui uma introdução. Mas optei por retirá-la.

Deixo-a nos comentários depois.

 

Imagem: Nicholas Ainley ou  Shinybinary

Olhar

 

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                                        Para minha vó, Neuci Leal de Leal, ou só Nanci (a mulher mais teimosa que já conheci).

 

Então eu nunca mais verei-te. Desvanecestes no ar como todas as coisas vivas. Pena que tinhas significado para mim... E o sal escorre por meu rosto. E a culpa é minha e só minha. Porque eu te deixei para depois para amanhã.. E aí fostes embora… Como todas as coisas vivas.

O negro é o caminho natural, dizem-me. O vermelho era a cor de tuas unhas. Sempre. A dama de negro te tomou pela mão e nada posso fazer quanto a isso. Só sal que escorre de meu rosto.

O que aconteceu com a guria daquele olhar confiante que jurava que o tempo e o mundo estavam a seus pés e o dever dos outros era acatar suas ordens?  Porque te deixastes levar pela mão sem antes resistir. A teimosia tua te fez querer ir junto com ela? Foi isso?

Aqueles olhos de fogo hoje deixaram de brilhar. E o tempo chuvoso se encontra.  As nuvens lá no céu, prontas para despejarem água sobre a terra. A chuva que ia apagar o fogo de teus olhos? Ou são outras lágrimas misturadas às minhas?

Escuro hoje. E a essa hora tomarias chimarrão com ele. E a essa hora, vocês fariam o café da manhã para mim e minha prima. E minha visão turva se encontra porque ambos agora são apenas lembranças.

Mas a essa hora, estarias com tua escova de cabelos em mãos. E o secador. E o batom. E os saltos. Porque eras mulher. E ninguém, ninguém neste mundo te tiraria a altivez. E o fogo nos olhos. E as unhas vermelhas. Sempre vermelhas e longas. Tuas armas, em alguns momentos.

A essa hora, estarias de biquini na praia. Caminhando. Os pés na água, o biquini sumário. Ou durante o chimarrão falaria como foi o primeiro encontro com ele. Tinhas 13. E ele seria teu. Foi o que dissestes… E ele foi teu, não foi? Até o fim, foi teu.

E a essa hora, eu cobiçaria teu casaco vermelho, aquele que me destes. Virei chapeuzinho vermelho… Minha avó me deu um belo casaco. E um bom gênio. Os nossos olhos de mesmo olhar. O mundo é nosso, não é? Há um fogo nestes olhos. Que me destes de presente. E eu agradeço. Hoje, a noite caiu. Hoje, o céu não quis mostrar seu fogo. Hoje o fogo não se mostrou. Teus olhos fecharam. Teu fogo apagou. E logo a chuva vem… Mas meus olhos vão queimar ainda mais, pois tua chama destes de presente para mim… Logo a chuva vem, a terra se molhará, com a lágrimas do céu e as minhas.

 

Minha avó faleceu hoje. 3:30 da manhã. O texto é para ela. Ela era de touro, tinha olhos castanhos e um gênio muito forte e ruim (que em parte eu herdei). Ela sempre pintou as unhas de vermelho. O único camarão que eu gostava de comer era o que ela fazia para mim. Quando eu ia para a casa dela quando pequena, ela fazia torradas para mim e minha prima. Quando eu fazia companhia para ela, tomávamos chimarrão juntas. Quando ela e a mãe brigavam, eu ria. E as duas brigavam muito. As duas tinham gênios infernais. E ela me dizia, te arruma! Que assim arranjas namorado. E eu não me arrumava… E ela brigava com a mãe e não a elogiava nunca. Aí, quando a mãe não via, falava para os outros, minha filha pinta, minha filha isso, aquilo outro. E a mãe não sabia. Aliás, elas nunca se acertaram direito. Mas a essa hora da manhã, ela estaria de secador na mão. Ela estaria se arrumando para sair. E se ela estivesse aqui em casa com a mãe fazendo isso, a mãe a esta altura do campeonato estaria de cara e as duas certamente iam brigar…

Poço dos desejos

 

 

3

 

Dessa vez, e somente dessa vez, falarei de nós. E de minha burrice. E das expectativas que não deveriam, mas estão sempre lá.

É essa vigilância que me sufoca. Sem querer, pego-me crendo que talvez ela seja sinal de outra coisa. Algo que minha inteligência nega querer, mas minha burrice quer abraçar de toda e qualquer forma.

Típica desculpa de viciado que agora usarei: mais forte que eu. Mais forte que eu surge este impulso de ter algo que não existe. E que não podes me ceder.

Não é algo que esperes, não é algo que queiras. Não é algo que possas dar. Mas eu desejo de tal forma que me parto em pedaços toda vez que esqueço e em seguida lembro, não posso ter. Não  é meu.

Como meu defino: estas pernas, estes braços, estas lágrimas. As últimas não deveriam estar ali, aliás. Meu também é este medo irracional, que me toma por completo e torna uma pequena grande vitória sair da cama todas as manhãs e de casa para a rua. É uma vitória para mim caminhar passo após passo lá fora. Comunicar-me.

Pouca gente sabe quanto medo eu tenho das coisas. Os monstros em meu armário são tantos que eu acho que lá fora pode ser pior. E nunca é. Mas eu tenho medo. Vivo com medo. E tenho cá para mim que a coragem é sorrir e dizer oi para quem não conheço e para as caras conhecidas de todos os dias. Quantas pessoas sabem que tenho medo de acordar? Quantas pessoas sabem que tenho aterrorizo-me antes de falar um oi? Um olá como um grande ato de coragem. Que ridículo.E é assim que vivo.

Não é o medo dos assustados. É o terror daqueles que se contorcem de dor toda vez que lembram que devem enfrentar o que temem. E eu temo a tudo. De trincar minhas pernas e acreditar que sofrer pequenas violações constantes é melhor que enfrentar o grande desconhecido. Este me tira o sono. O grande desconhecido…

E eu não queria ser assim. Assim como  não quero me obrigar a racionalizar e deixar de lado minha burrice inerente.  Mas certas coisas provém dela. Dividida em duas, eu sei que as coisas são como são e não há necessidade de inventar caminhos que inexistem. É apenas mais uma coisa pela qual se quebrar em mil pedaços sem bons motivos. Não há um porquê.

Ainda assim, esse desejo é mais forte que eu. Burrice minha, bem sei. Mas eu queria… Tu talvez nunca possa me dar isso, e é egoísmo e estupidez pedir por isso.

Enfim, eras tu que deveria estar de joelhos agora, não eu…

 

Imagem: Jing Zhang vulgo Mazaki.

Da ignorância

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Paciência com a burrice nunca foi o meu forte. Não, o problema nunca foi a burrice. É a ignorância.A ignorância é algo que se escolhe, uma opção, meio de vida. A burrice é inerente. Falta de inteligência não é algo que se escolhe, por mais que seja proveitoso para alguns nela esconder-se.
Dama risonha, que se apropria do sarcasmo e se disfarça em burrice, caminha por entre as cidades em andrajos, fingindo-se humilde quando na verdade é de arrogância que vive. O ignorante tanto faz-se de humilde para obter vantagens dos tolos inocentes (afinal, a ignorância como meio de vida serve para aproveitar-se dos outros), que para o ignorante fazem favores devido ao seu não conhecimento... Como finge-se louco para não compreender o mundo do outro e reclamar quando seus desejos não são atendidos da forma que antes desejava.
É escolha do ignorante, esquecer. Esquecer que o mundo não se faz somente dele. Esquecer que os outros para ele somente não existem. Esquecer que nem todos são iguais e em cenários iguais vivem. É escolha. Ele poderia lembrar, sua inteligência lhe permite façanha tal, vez que humano é.
A intolerância é outra escolha do mesmo. E é nesta opção de ser e agir que o ignorante se mostra tal qual é. Ela é o caminho do mesmo. Ela é o esqueleto do mesmo. É o que o faz ser como é. Intolerante a outros desejos, outras palavras que não são aquelas que ele desejava. Intolerante àquilo que que não faz parte de seu mundo, ele remete à idiotia em suas reações contra o que não admite.
E é preciso paciência para lidar com esse tipo de coisa, para arrancar o ignorante de seu modo de vida. É mais fácil, fechar os olhos, fazer-se de aleijado em relação ao mundo. É mais fácil. O ignorante é, por própria escolha, uma mula empacada em lugar nenhum.É um ato de fraternidade e caridade tirar-lhe dali. E infelizmente, para os ignorantes com os quais lido, essas são duas virtudes que não possuo.

 

Imagem: Amelies Welt